domingo, 26 de junho de 2016

Um pouco além do resultado

O torcedor do Santos do início dos anos 90 estaria com a semana conquistada e, quiçá, o mês de julho, com uma vitória por 3 a 0 sobre o São Paulo no Pacaembu. Rivalidade, histórico, palco da partida, tudo levaria a um êxtase sem igual para alguém que se aproximava do ano 10 sem comemorar um título (e amargaria muito mais que isso) e via, em paralelo, o adversário da tarde de domingo erguer taças sistematicamente.
Mas não seria apenas isso.
Porque o São Paulo do início dos anos 90 não era apenas um time que jogava como se fora uma orquestra. Era uma equipe que disputava a partida de quarta à noite, com chuva, em Borboleta do Catupiry, como se estivesse no Nacional de Tóquio enfrentando o Barcelona, valendo o Mundial Interclubes. Jamais se entregou com facilidade, jamais aceitou uma derrota, jamais achou normal sair de um clássico de cabeça baixa, reconhecendo a superioridade do adversário.
O São Paulo de 2016 se porta desta maneira, E valoriza ainda mais a vitória santista.
Porque o Santos do início dos anos 90 não era ruim, mas vencer um adversário arrumado como aquele São Paulo era fato a ser comemorado e muito. o Santos de 2016 é o time arrumado, que soube se acertar e conseguiu o devido entrosamento. E vence o São Paulo de 2016 como se enfrentasse o time pequeno lá de Borboleta do Catupiry. 
Não foi o placar, 3 a 0 nu e cru. Foi a forma como esse prato foi preparado. Entram nesse contexto o domínio santista, o toque de bola envolvente, a maneira como soube se portar diante das investidas são-paulinas. 
Renato foi o mestre no Pacaembu e ensinou Thiago Maia. Lucas Lima e Vitor Bueno foram a genialidade. Gabriel e Rodrigão, o complemento, embora Gabriel precise trabalhar a mente. Se expõe demais ao entrar em qualquer desavença. pode ficar visado por árbitros e adversários. Não precisa disso, Tem muito talento e não pode desperdiçá-lo com coisas pequenas.
"Ah, mas o Bauza poupou uma parte do time para a Libertadores". Ok, vamos lá: se o cidadão não tivesse condições, não vestiria a camisa do São Paulo. Se ele poupa e o São Paulo vence, imaginem as senhoras e os senhores o que colegas iriam publicar enaltecendo a genialidade do homem e a destreza do Tricolor. E, se for para poupar, voto com o relator Walter Casagrade Jr: então que nem treinem.
Falo da maneira passiva como o São Paulo aceita algumas derrotas e o que aconteceu no Pacaembu mostrou de maneira clara. Calleri, sim, foi voluntarioso. Tanto que exagerou ao tentar tirar a bola de Vanderlei. Luiz Araújo mostrou que estava a fim de incomodar. Mas só. Pouco para o São Paulo. Pouco para um clássico.
O Santos, sim, mostrou vontade, talento e entrosamento. E o resultado mostrou o que foi a partida. O santista de 2016 está acostumado às decisões de títulos e uma vitória no clássico talvez não garanta a semana. Mas a noite de domingo e a manhã de segunda-feira, sim.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

"Eu volto com a taça"

O trabalho é interessante quando segue o contexto que o gosto sempre indicou, mas alguns trabalhos são mais interessantes que os outros.
Um deles me tirou de casa por volta das 11 da manhã de uma quarta-feira nublada e fria. Era 22 de junho, E havia apenas duas certezas: uma de que muitas horas de trabalho viriam e a outra de que seriam horas de trabalho sob tensão. Um sentimento que ultrapassava as quatro linhas do gramado do Estádio Paulo Machado de Carvalho. Porque o que aconteceria naquela noite, por si só, provocaria a tal tensão. Mas, paralelamente, havia o chegar lá, instalar-se, executar, agir para o trabalho dar certo.
E surgiu, na hora do hashtag partiu, uma frase que marcava uma certeza não muito certa, mas naquele instante convincente:
"Eu volto sei lá que horas, mas volto com a taça".
Fomos, Ao meu lado, a genialidade de Ted Sartori e o dinamismo e a competência de Marcelo Hazan, Havia muito o que aprender com eles. Alexsander Ferraz, Rogério Soares e Nirley Sena cuidariam das imagens. Chegada e instalações check e o Pacaembu ganhou ares de decisão com o cair da noite. Caiu junto a internet, para não mais voltar e, sim, comprometer bastante o trabalho.
E trabalho havia. Sentir o clima do Pacaembu e do seu entorno para transmitir essas informações a quem da Baixada ou de qualquer parte da galáxia acessasse. Algumas informações chegaram, outras não. Da retaguarda, o gênio e sempre amigo Anderson Firmino tranquilizou. Não era culpa do repórter se a transmissão digital derruba a passagem de dados.
Houve tempo para gravar o vídeo 'vamos ser tri', enquanto Santos e Peñarol reprisavam o segundo fato mais relevante de 1962. Havia um aspecto retrô sim, bem como as más lembranças de quem viveu de maneira intensa dos 18 anos de fila e parecia ainda não ter se acostumado às rotinas de decisões. Santos e Peñarol lembravam mais os duelos pela falecida Supercopa dos Campeões da Libertadores, aquela em que o Santos entrava pelos títulos que não vi e que em pelo menos em 1991 (que me lembre) terminou diante dos uruguaios.
Talvez porque o Santos de 1991 não tinha Arouca, nem o calcanhar de Ganso, nem o chute de um garoto que sequer havia nascido naquele ano. O gol de Danilo era certeza antes do chute. Preferi olhar para cima, para a área Vip e ver a reação de um ex-camisa 10, que chacoalhava seu paletó vermelho Ferrari enquanto abraçava quem aparecesse pela frente. Um gol contra lembrou que nada havia sido fácil e jamais será. Uma festa ofuscada pela batalha campal e na área de Imprensa. Sim, jornalistas brasileiros e uruguaios quase saíram no tapa. Houve xingamentos e voos de objetos. O bombom que acertou minha orela direita jamais foi encontrado para ser degustado lentamente diante do agressor. Esse também jamais foi achado (ou tornar-se-ia agredido).
Colhi algum material importante na saída. Papo informal com os mais conhecidos na porta do ônibus. Acertei com o Léo aquela entrevista que ele estava devendo. Ao mesmo tempo um zagueiro de Dracena levava a taça para dentro do ônibus. 
Retornei à base às 4h40, depois de andar junto com o comboio que acompanhava a chegada do ônibus na madrugada santista. Tomei um banho, escrevi neste espaço. O dia estava claro. Um novo dia de um novo tempo. Deve ter sido esse o título do texto. O deste, vou decidir agora. "Título vem por último", é o que dizem desde o primeiro ano de Jornalismo. Esse título era o último e foi o único in loco.
A taça eu não trouxe. Mas foi bom ter visto para onde ela foi...

domingo, 19 de junho de 2016

Metade do copo - corrida boa ou chata?


Legal a corrida em Baku.
Lugar 100% novo, GP da Europa de volta ao calendário, uma pista desafiadora, cheia de retões, vários pontos de ultrapassagem em áreas largas, curvas onde só passa um e os cegos do castelo voltam para casa se não tiverem a devida cautela...enfim, interessante.
Chata a corrida em Baku.
Fatalmente quem precisa promover a categoria irá enaltecer as trocentas ultrapassagens. Sim, louvável, mas esta vem sendo uma das cenas mais comuns nos scripts das provas da temporada 2016 da Fórmula 1. E em Baku não foi diferente. E, vamos e venhamos: em suma, a corrida foi Rosberg de ponta a ponta, como foram os anos Schumacher e Vettel, o GP do Brasil de 2015 e qualquer época em que haja uma equipe ou um piloto dominantes.
Tudo muito bom e muito bem para o alemão, que segue, enfim, para o título, depois de ver a taça que poderia ser dele ir para as mãos de Hamilton em 2015.
Falando nisso, há uns 10 dias, em uma conversa informal com o mestre Claudio Carsughi durante o almoço de lançamento do câmbio CVT dos Nissan March e Versa (sim, estar com o mestre tornou-se comum desde a ida para o Jornalismo Automotivo), perguntei a ele se era verdade que Hamilton perdeu o foco está mais preocupado com o marketing e não esteja nem aí para nada mais.
Com genialidade e o sotaque inconfundível, Carsughi começou sua resposta com um "bem,..." para depois dizer que Hamilton PODE ter percebido um trabalho pró-Rosberg na Mercedes. Alemão com alemão, entendem? E isso PODERIA provocar um desinteresse.
Aí são vários motivos: Hamilton já tem três mundiais e poderia 'acomodar'. Hamilton já 'roubou' a taça em 2015 e pode não fazer o mesmo esforço desta vez. A Mercedes pode fazer dois campeões diferentes em sequência, sendo eles companheiros de equipe nos dois anos. Em uma puxada rápida na memória, veio apenas a McLaren em 1988 e 1989, com Senna e Prost, nessa ordem.
É possível. E pode ser real...

sábado, 18 de junho de 2016

Quem é que sooooobe???

Toninho Carlos e Márcio Rossini
Nildo e Davi
Camilo e Rogério
Pedro Paulo e Luis Carlos
Marcelo Fernandes e Maurício Copertino
Narciso e Ronaldo Marconato
Argel e Claudiomiro
André Luiz e Alex
André Luiz e Ávalos
Edu Dracena e Durval
Tem mais, muito mais. Antes e depois. Antes, não vi. Depois, foram muitas formações.
Duplas de zaga do Santos. Em boa fase ou não. E um problema em comum: 
Bolas aéreas

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Azerbaijânicas

GP da Europa de volta, mas desta vez no Azerbaijão.
Tudo novo e diferente...até a página 2.
Na sexta-feira deu Mercedes na frente, com Hamilton em primeiro e Rosberguinho em segundo.
Normalmente não esperaríamos novidades para domingo, mas elas podem vir, sim.
Circuito 100% novo, 100% de rua, bem mais largo que Mônaco, MAS...até passar no tal castelo.
O vídeo, disponível no site oficial da F1, foi gravado no medical car.
Simplesmente, muito louco...
http://www.formula1.com/content/fom-website/en/video.html

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Brinca não, Tio Bernie!!

Em entrevista à jornalista Julianne Cerasoli, do Uol, Felipe Massa reconheceu que o Brasil pode perder sua etapa no Mundial de Fórmula 1 em breve. O quase campeão em 2008 acha que Tio Bernie não costuma brincar em serviço. E, de acordo com a revista alemã Auto Motor und Sport, o chefe teria feito algumas ameaças, como acabar com a brincadeira interlagástica já em 2017.

"A gente sabe como funcionam as negociações do Bernie. Ele gosta de colocar pressão, como já vimos que aconteceu com Monza e em outras ocasiões. Quando tem alguma coisa que não está acontecendo do jeito que ele quer, ele fala o que tem de falar. Por outro lado, sabemos como está a situação. O momento do Brasil é muito difícil. Então não é impossível que acabe a F-1 no Brasil. É bem possível. Nesse momento, é muito difícil você ter certeza de alguma coisa", disse Massa à colega do Uol.

Fato é que há um contrato que garante a corrida até 2020 e os contratos na Fórmula 1 costumam ser cumpridos à risca, mesmo contra a vontade de alguma parte. Uma segunda verdade, ainda mais forte, é que nenhum prefeito de São Paulo quer ficar marcado pelo fim da etapa brasileira da categoria. Era o evento mais rentável da cidade até a Parada do Orgulho Gay ganhar força, mas vamos dizer que ainda tem muito potencial.

E há algumas razões para acreditar nisso: em 2012, ano em que cobri o GP do Brasil in loco pela última vez, o então prefeito Gilberto Kassab, ao chegar a Interlagos no dia da corrida, disse aos jornalistas (e eu estava entre eles) que dias antes fizera questão de apresentar Bernie Ecclestone ao prefeito eleito, Fernando Haddad. Raciocinemos: Kassab ia sair dia 31 de dezembro, não tinha feito o sucessor e poderia apertar aquela tecla. Não só não apertou como aproximou o futuro prefeito, opositor dele, do homem que negocia as coisas na Fórmula 1. Quando o assunto é importante aproxima os opostos. E ninguém vai abrir mão do que Luiza Erundina conseguiu depois de ouvir um certo Ayrton.

Mais uma: há muita gente (leia-se empresas e dinheiro) envolvida. Foi por uma empresa que acabei indo a Interlagos em 2015. Com um campeonato decidido, sem nenhuma chance a qualquer brasileiro e várias empresas investiram pesado na corrida. E Interlagos estava cheio. Fui de trem e ele estava lotado na volta.

A verdade é que, por uma influência midiática, o Brasil (ou a maior parte dele) não gosta de esportes, mas sim de brasileiros vencendo nos esportes. Não é cultural gostar de Fórmula 1. Há uns malucos que montam até blogs para falar de automobilismo, mas, perto de quase 200 milhões em ação, somos poucos.

Rumores são comuns na Fórmula 1. Alguns se concretizam. A nós resta a esperança de um desencontro de informações.

Até 2021...

terça-feira, 14 de junho de 2016

O clamor pelo depois

O clamor é visível e a ida de Tite para a Seleção Brasileira é favas contadas dentro do quesito clamor popular.
E, em termos técnicos, trata-se do melhor treinador brasileiro no momento.
A ida de Tite para a Seleção Brasileira não é favas contadas porque a Seleção Brasileira não segue termos técnicos, nem critérios profissionais. Aliás, é melhor desconhecer os critérios.
A discussão passa a ser o que esperar de Tite na Seleção. Se for um treinador apenas e tão somente, basta dar tempo e esperar pelos resultados. Se for obrigado a atender os interesses daqui e de lá, será mais do mesmo.
Não é do perfil de Tite adotar a segunda medida. E esse é mais um ponto a favor dele.
As mudanças vão acontecer. E os gritos globais mostraram que sim. Até outro dia atingiam somente treinador e jogadores e sempre depois da tragédia. Os berros mais novos também chegaram depois, bateram nas cabeças de maneira direta.
Ou teremos alterações drásticas, ou um novo documentário a respeito do enriquecimento do mandatário será arquivado depois de ir ao ar...

segunda-feira, 13 de junho de 2016

As várias faces de um 7x1


Um 7x1 nem sempre é um 7x1.
Pode ser um 0x0, com erro do árbitro a favor. Pode ser um 0x1, com erro do árbitro contra. Na mão grande, tirando a vaga das mãos do time que representa a instituição conhecida por meter a mão enquanto mete os pés pelas mãos nas decisões, aconteçam elas antes, durante ou depois de um 7x1 qualquer.
O 7x1 tornou-se 10x1 no exato instante em que o 7x1 foi tratado como um singelo acidente de percurso, daqueles que acontecem, fazem parte e são inerentes. Jamais foi reconhecido como o produto final de uma série de escolhas equivocadas e decisões insanas que foram mostrar seus resultados quando o resultado surgiu na hora de uma decisão. 
E como lidar com um singelo acidente de percurso? Com uma discreta (e considerada radical) mudança na comissão técnica. Simples assim. Problemas resolvidos, viveremos novos tempos, uma nova era, é o futebol apertando o Reset e começando tudo do zero, em que pesem os mesmos dirigentes e uma comissão nova que por um desses acasos era a comissão antiga, atuante até 2010 e retirada de maneira veemente após um acidente de percurso na África do Sul.
Só que um 7x1 nem sempre é um 7x1. E esse veio no discurso dos novos tempos, protagonizados por antigos roteiristas, diretores e atores, exercendo o mesmo papelão de outrora, no qual o personagem submete-se aos caprichos e às exigências de engravatados calçados em seus sapatos italianos enquanto cuidam dos próprios interesses, disfarçados de enchuteirados brasileiros com residências espalhadas por Europa e Ásia.
Um 7x1 nem sempre é um 7x1 porque uma decisão por pênaltis não termina com um placar de 7x1, mas elimina com uma derrota pelo placar mínimo. Um acidente de percurso, menos importante que as negociatas disfarçadas de exportações dos nossos melhores produtos. Importava o Coutinho do Século 21 ir atuar na terra onde os Beatles mudaram a história da música no mundo, na mesma época em que outro Coutinho, que jamais ousou valorizar mais uma negociação do que a busca por uma conquista, mudava a história do futebol ao lado de um outro gênio (este com a camisa 10) e, assim, ajudavam a tornar o Brasil a potência que julga ser até hoje.
Um 7x1 nem sempre é um 7x1. E será quando uma nova mudança radical for anunciada. Em busca da moralização, torque-se a comissão. E rumo ao ouro! Se não subir a Serra Pelada, haverá quem considere um novo 7x1. Não será porque há outro 7x1 desenhado, projetado, encaminhado e, acima de tudo, com possibilidades concretas de tornar-se real. Afinal, 2018 é logo ali. Ou não. E se não for, talvez as verdadeiras mudanças radicais tenham início. Porque uma vez fora, pela primeira vez de fora, não serão os corações esperançosos dos brasileiros que irão sofrer, mas sim os bolsos daqueles que têm todo o interesse em ver braços levantados e sorrisos em rostos pintados de verde e amarelo, enquanto aumentam a audiência e consomem os diversos produtos acoplados ao produto Seleção.
Esse, fatalmente, será o 7x1 mais sofrido da história. 
Mas hoje, talvez, bastante necessário...

Foto: Jim Rogash/AFP

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Priscilla

Muito doido pode ser qualquer coisa.
Para o bem ou para o mal, mas muito doido.
Surpreendente, inesperado, grandioso, mas muito doido.
Foi muito doido abrir o Facebook logo pela manhã. Priscilla havida ido embora. Lutou, relutou, batalho, tentou até o fim. Perdeu a batalha, ganhou a guerra, descansou. Cedo demais para descansar. Um descanso bem vindo para quem lutou tanto.
Não foi surpreendente, nem inesperado. Foi apenas muito doido. Porque você espera, mas não quer. Sabe que pode acontecer, mas não quer que aconteça. Sabe que cedo ou tarde vai acontecer, mas não quer que essa hora chegue. Quer que as horas passem, mas que o fato ali escrito, transcrito e sacramentado não se torne realidade. Porque ninguém pode ir embora aos 32. Não quando é vítima de um mal terrível, que ataca, acomete, derruba, castiga. E castiga a quem não deu motivos para receber castigo, sofrer, penar, lutar, batalhar. Não é a ordem natural, aquela que diz que filhos enterram os pais. Não é natural acontecer o contrário. O natural seria Priscilla, já anciã, ao lado dos filhos e dos netos, entregar Isabel e João ao Grande Criador e a Ele agradecer pelos anos de cuidado, carinho, afeto, preocupação. Não é natural que Isabel e João enfrentem esse processo, entregando Priscilla ao Pai.
Não lembrava de Priscilla. Aceitei o pedido de amizade, vi os amigos em comum. Não reconheci nela uma mulher, casada, responsável. Priscilla, para mim, era uma menina, continuava a ser. Porque quem eu vejo crescer não cresce, será sempre menina ou moleque. Priscilla não cresceu. Pode ter crescido para os outros, para mim era a mesma menina de duas décadas atrás, que no templo ficava lá nos primeiros bancos, do lado esquerdo de quem entra, ao lado de meninas da idade dela. Falava pouco com ela. Não por arrogância deste lado ou má vontade do outro, apenas por uma questão de diferença de idade, inexistente neste momento da vida, decisivo se tiradas duas décadas das duas partes. Era alegre, risonha, brincalhona, inocente. Não, definitivamente não tinha nada a ver com o estilo do lado de cá. Embora por vezes a vontade fosse ser como o lado de lá.
Priscilla ensinou. E transmitiu um dos melhores ensinos: rir quando tudo leva a chorar. Falar bonito quando há todos os motivos para xingar. Demonstrar felicidade quando as circunstâncias levam ao recolhimento, ao isolamento. Priscilla não parecia ter o que tinha. Não demonstrava, não deixava ninguém esmorecer. Cantava, louvava, se alegrava e transmitia alegria. Orgulhosa do marido, que não a deixou nem por um minuto.
Priscilla se foi, mas deixou muita coisa por aqui. Muita coisa boa. Uma grande lição, por exemplo. Está bem ,melhor que nós, como na verdade, sempre esteve. Não dá para dizer ‘vá com Deus’ quando, na verdade, ela já está com Ele.

...

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

V.


Conheci a Cristolândia.
Não, não conhecia. O povo desembarcou em Santos no fim de agosto, iniciou as atividades, mas não houve a possibilidade de ver de perto até que as circunstâncias se mexeram de uma forma que tornou a coisa viável. Sim, estava mais do que na hora de conhecer uma missão Batista, ainda mais para quem vai para 34 anos do início da formação eclesiástica na Igreja Batista.
A matéria envolvia dependentes químicos. Jornalista pode especializar-se em um assunto, mas ser monotemático não é recomendável. Vez ou outra é bom deixar os gramados, as quadras, as piscinas, as pistas, não sujar as mãos com óleo e pneus, não ficar com a cara afundada no motor.
Conheci o V.
Não, não conhecia. E não vou prosseguir com o nome dele neste espaço. A primeira letra já é o bastante, uma invasão de privacidade para mim. Para ele, não.
“Pode colocar meu nome todo e se quiser tirar foto, fica à vontade”.
“Melhor não, cara. Questão de ética, vamos preservar sua identidade”.
“Se quiser, eu tiro a foto de boa”.
A orientação ao repórter-fotográfico Cláudio Vitor Vaz foi de não mostrar o rosto. E o Portuga (porque morou na terrinha) entendeu perfeitamente. Usou da competência para fazer um jogo de luzes que permitiu apenas a imagem da silhueta de V. Naquele momento eu nem pensava em outra imagem. A história de V. rodava na minha cabeça.
V. começou a roubar aos 14 para ter roupas de marca, motos e pegar umas meninas. Entrou no vício, continuou a roubar, foi flagrado, conheceu boa parte do sistema carcerário do Estado de São Paulo. Fugiu, saiu na temporária e não voltou, foi flagrado roubando, entrou por porte de arma, ouviu as regras da malandragem e não teve problemas. Em termos.
“Dormir lá dentro, você não dorme. Você descansa, mas não sabe a que horas vai dar uma treta”.
V. foi transferido tantas vezes que a família desistiu de procurar. Ia a um lugar, ele estava em outro. Como ele mesmo se achava incorrigível, a família deve ter pensado a mesma coisa. Nem do filho ele sabe mais.
Há menos de um ano V. está limpo. Não garante que não vá ter outra recaída. Tem medo disso. Tenta, luta contra si mesmo. Para o crime, diz que não volta.
E por que pombas de cargas d’água contei um pouco da história do V.?
Porque V. provoca uma confusão mental das mais violentas. Há seres incorrigíveis, há seres como V. ou há tudo que é tipo de ser? É difícil cravar, bater o martelo, determinar. V. achava que era incorrigível e hoje acha que não é, que ele é, sim, uma prova de que essa teoria não existe. Basta o cara querer que se endireita.
V. é um ex-assaltante, praticava sequestros-relâmpago. Tocava o terror e vendia os carros para o desmanche. Quantos pais de família voltavam de um dia de trabalho e foram aterrorizados por V.? Quanta gente honesta perdeu seus carros para os desmanches para onde V. levava as carangas que roubava? Não dá pra concordar com ele. E a lei é clara: fez, pagou. Transgrediu, deve ser punido. Deveria, por vezes não é, mas deveria.
Até o Portuga chegar eu fiquei sozinho com V. em uma sala fechada. Havia duas alternativas: levantar, apontar o dedo e dizer “ladrão, safado, fez muita gente sofrer, merece morrer” ou simplesmente esconder celular, rádio e qualquer outro objeto que possa ter algum valor. Escolhi a terceira opção: tocar a entrevista como se ele dissesse que a vida toda foi um honesto balconista de padaria que trabalhava de dia e estudava à noite para melhorar de vida. Deixei celular e rádio à mostra. Deus já perdoou o cara, quem sou eu para condenar? V. disse estar curado e eu tinha que ser profissional, ainda mais diante de uma das melhores entrevistas em quase uma década e meia dessa vida sem rotina, sem sábado, domingo, feriado, festa de família etc.
A Cristolândia de Santos tem V. e mais 74. Isso só em Santos. Tem tudo que é tipo de tratamento. E tem muita gente que precisa de um apoio, de uma mão, uma palavra. Mãos para bater e palavras de agressão esse povo já recebe na rua. Para ajudar a levantar são poucos. É um povo que chega por vezes sob o efeito do último uso, com um cheiro muito forte, falando nada com nada. Sentem fome, podem ficar agressivos, foram rejeitados. É um trabalho difícil. Mas a vida não é fácil. Fácil é a vida no mundo virtual.

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